É como quando escorrego meus dedos pela lã recém trabalhada, o atrito dos fios mal formados roça minha pele trazendo a lembrança da infância, em que casaquinhos caseiros me envolviam o corpo. Vestida para o frio que reinava no exterior, a brisa me toca e eu voo junto ao vento. Árvores caídas ao chão, o pulsar do peito me leva a cair o corpo cobrindo-a. Eu sinto agora, presa na memória de meus dedos, a sua casca com formas enrugadas. Tão velhinha parece, mas escorrego por ela encontrando lugares em que o tempo não lhe atacou, valas de seus troncos que nem o vento silencioso conseguiu alcançar. Recobro as pregas bem feitas que formam até um sorriso comovente, voo para outra dimensão. O sofá tem partes desfiadas pelos gatos que teimam em afiar suas unhas, afiam e desafiam a mulher dona de suas panelas. É com os dedos que eu relembro a situação, estes que até hoje me acompanham, naquele dia deslizava sobre um rosto de barba mal feita e rugas trazidas pelos velho tempo. Mãos ásperas, marcadas pelo trabalho pesado. A pele quente exalava kaiak. Mas, o sangue cálido se foi, o corpo gelou. Esmoreceu.
Fecho os olhos e abro os dedos, estes relembram de cabelos sedosos e de outros nem tanto. A pétala macia perdendo o pólem em meus “bem-me-quer” sem vestígios de sucesso. Percorre o desenhos dos lábios bem desenhados ou corre pelos traços do nariz. São dedos que brincam de memorizar, são estes que depois torturam-me a mente ao recobrar tais atos até mal sucedidos.
De que adianta analgésicos para minhas dores de cabeças, efeito da ressaca tumultuada de pensamentos. As drogas não atingem a pele que se arrepia ao lembrar de um toque macio, elas não dominam o sangue preso em meus dedos. O sangue que ferve, que sente.
G.Schardosim