Perdoa a minha falta de tato, por não saber te por entre meus dedos e dispersar toda essa angústia. Ao contrário, sou eu quem lhe tranco a garganta num ato desintencional. Eu lhe asfixio.
Tu me parece tal como um cristal, uma pedra preciosa. No momento que o observo, meus olhos reluzem hipnotizados pelo teu resplendor. Talvez eu seja pobre de espírito, porquanto me sinto tão inferior à sua volta. Rapaz, a tua alma é um caminho que eu gostaria de percorrer e entre os teus medos e anseios eu me esconderia. Mas não há de ser ilusório? Eu sinto um frio na espinha por descobrir os teus mistérios, onde termina esse ser que se apresenta entre a penumbra da noite e começa um alguém -que não faço ideia de como descrever? Eu que sempre preferi ficar entre os bancos da platéia, observando os atos que se sucediam, hoje me vejo em frente aos holofotes, sendo como um espetáculo aos seus olhos. Eu não enxergo a minha platéia. Me assusta o fato de não te enxergar, na mesma intensidade da sede que tenho de te descobrir.
Eu não digo adeus, todavia, te entrego a Deus. Num ato incapaz de protege-lo com minhas próprias mãos. Já viu um beija-flor entre os dedos de alguém? A sua fragilidade não permite ao homem toca-lo sem que o fira. Pássaro, eu sou a prisão das tuas asas, o calar do teu canto. Porém, me beba, me tome -como água em um deserto, anseie por mim. Vês, que não sei dizer adeus, eu te afasto e te retenho. Apenas me perdoe por ser incapaz de te fazer ficar, tanto quanto, de te deixar partir.
À Deus (eu te entrego)
Gschardosim
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