Moço, se eu fosse você, eu fugiria. Há tempos que os dias se tornaram apenas fugas em mim. Eu me encontro presa a este corpo enlamado pela culpa, poderias tu viver acompanhado de mim, assim? O meu íntimo me faz cárcere e tudo me parece mais bonito visto de longe.
Até as rosas, meu caro. As belas rosas, -não há outra flor com tamanha delicadeza e intensidade- transpõe sua beleza em pétalas tão frágeis, basta um toque mal cuidado e seu corpo floral se desmancha entre os dedos. Restam-nos os espinhos, o caule e suas raízes. Eu sou todo esse resto, de cor desbotada. Teus olhos almejam enxergar outra vez o vermelho de um botão de rosa se abrir, mas o infértil não produz frutos. É aí que me refiro, a poesia morta da flor, e aí que me encontro. Covardia seria invadir teu coração. Eu raramente cicatrizo as escaras, no entanto, cavo mais fundo a dor do meu receptor.
Tu poderia ser comparado ao pássaro que cantava próximo a minha janela, na meninice. Ele vinha, soltava sua voz melodiosa e eu escondida ouvia a música se formar em meus ouvidos. Era doce, suave, aquecia a alma, assim como tu. Contudo, bastou um movimento brusco e eu o espantei (eu só queria ver além do que ouvia). Meu temor é que eu lhe assuste com minha falta de lucidez e excesso de tristeza. Ouvir teu canto é prazeroso, mas, e se não bastar? “Que o sentir possa alimentar-nos a alma".
Seria eu um borrão no teu céu, cobrindo a lua ou vedando teus olhos. Não tenho tido a intenção de lhe assombrar as noites, nem tão pouco os dias. Entretanto, me encanta ser tua musa, e me envaidece ver meus traços descritos por um poeta que nem sequer viu-os realmente. Com certeza, tu é o semblante da poesia. Nos teus lábios se encontram as traduções de muitos sonetos.
O amor pertence aos loucos, não enlouqueças por mim.
Com amor, não sintas mais dor.
Gschardosim
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