Goteja por mim, entre as saliências de meu corpo. Lágrimas num tom vermelho rubro que escorrem de minhas veias. A vida, a vida se vai… resvalando pelas lacunas desse meu ser. Minh’alma desfalecida agora se encontra. Procura-se um doador. Do tipo: Qualquer que se encontre no mercado-negro, branco, pardo tanto faz. Porquanto a alma deste corpo só faz chorar, chora lágrimas de sangue. Todos os dias, todo instante.
A cada gota que cai ao chão é um pedaço de minha alma que foge. Permaneço com os dedos cerrados, pressionando-a em minhas mãos. Não, não irás fugir de mim. Seguro firme. Sem alma não ficarei, não viverei… não literalmente.
A última gota do sangue vivo enche meu olhos e escorre por meu rosto. Minh’alma chorou. Faleceu, por entre o sangue morto de minha face. Negro são meu olhos agora, fundos estão. A melhor recomendação, é que não espie por entre eles. Perder-se-irá. Porquanto, agora quem vos fala tais coisas é a roubadora de almas. Os olhos… as janelas da alma. Assim que penetras teus olhos em meu olhar morto, sugo toda a vida existente nesse corpo. De início sentirás uma mera tontura o atingir, e então o ar passará a comprimir seus ossos em uma dor horrenda. Viverás o que vivi, lágrimas de sangue fugindo pelos poros de seu corpo. Por fim, roubo-lhe sua alma.
A verdade é: Me alimento de almas…
De início pode parecer algo sujo, já que transformo pessoas em mortos-vivos. Mas, essa é a lei da sobrevivência. A lei do ser-humano. Algo que já deixei de ser há algum tempo. Porém, há algumas manias humanas que ainda não consegui me desfazer, perdoem-me por isso… Um dia, largarei disto. Não, não falo dessa minha dieta almada e sim desses meus fiapos humanos, que insistem vez-e-outra em aparecer.
Vesti a carapuça da morte nesses últimos anos. Levando comigo pessoas. Jovens, velhos, crianças. Não sou muito de selecionar, mas admito minha preferência pelos mais moços. A sua vivacidade me aguça a fome. E quado estou praticando o ato, sinto em mim as alucinações percorrendo seus pensamentos. O seu sangue tem um gosto saboroso. Até que o consumo. Roubo não só a alma. Pego para mim toda a sua juventude, sua felicidade. Sou a pior parasita dos humanos, e muitos não fazem nem ideia da minha existência. São tolos. Se veem enfeitiçados por mim logo de imediato, isso se torna até tedioso, porquanto nem necessito de muitos esforços.
Mas veja bem, não havia percebido. Que bela alma essa sua. E que juventude esplendida…
Venham cá, moço e moça. Penetre seus olhos nos meus! Sinta o prazer da dor e veja isso como algo magnifico. Solte gritos prazerosos aos meus ouvidos!
Ahhh… —suspiro—
Roubei. Vos roubei a alma!
Bem-vindos, caros moribundos-vivos…
G.Schardosim
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