É estranho o modo como a palavra foge dos meus lábios, assim como você foi arrancado de meus dedos. Apenas ouço o vazio se esvair no comprimir dos meus lábios. Sem rumo as letras pairam no ar. Confusas. A perturbação é percebida na vibração da voz que já não é emitida suavemente, esta treme no grunhir de cada sílaba. Sussurro baixinho, tentando a dura guerra de familiarizar-me com o som. É então que me vem as certezas, que acordo do meu coma induzido. Você mão pode ouvir o meu chamado, mas eu continuo gritando repetidas vezes para enganar a mim mesma. “Você está aqui, sim, você está aqui, você está. Por onde andou?”
Sete palmos abaixo do chão se encontra o teu corpo. Fétido. Em pleno estágio de decomposição. Caiu em um abismo, e eu por mim me jogaria ao teu lado. Mas o que se encontra em baixo dessa lápide são apenas restos de um homem. De que me adianta teu corpo se tuas mãos não afagam mais os meus cabelos? De que me vale teu par de olhos celestes se não brilham mais como o dia? Eu quero o teu íntimo, a tua vida, a alma que se fazia presente entre tuas entranhas.
De que me serve a tua morte e teus destroços? Você não mais reside entre estes membros e teu amor não cabe neste coração sem quentura alguma.
Teu corpo está morto. Eu almejo encontrar tua alma.
G.Schardosim
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