O que está havendo
comigo? Talvez foram as três taças de vinho. E talvez… talvez eu esteja
ficando muito fraca para a bebida. Aliás, eu já fui mais forte em muitos
outros sentidos. Estes que deixei de ser há algum tempo já. Dias, meses
quem sabe. Não gosto de contar o tempo, e muito menos parar para pensar
no quanto que ele corre, no quanto que eu mudo. Estou envelhecendo, eu e
meu velho copo de vinho. Nós, a sós. Sem interrupção. A verdade é, quem
viria bater em minha porta? Expulsei a todos. Eu escolhi assim,
tira-los da minha vida. Eu estava cansada de conviver com aquelas
tipicas mudanças de humor dos seres humanos. Já não bastam as minhas?
Uma hora feliz, na outra é tristeza, e depois o álcool invade. Sim, é
isso mesmo. O álcool já faz parte de mim, se tornou um estado meu. E
acredite, eu sou muito mais engraçada quando estou embriagada. Tudo em
mim, é exagerado. Tudo em mim, vem em êxtase.
Olhe só, a que ponto
cheguei. Não enxergo um palmo a frente de meus olhos. E tudo parece mais
divertido assim. Sorrio sem motivo, gargalho sem ter porquê… Estou
trocando meus pés. Sem contar que estou a dialogar comigo mesma! Como
posso chamar isto, embriaguez ou solidão mesmo? Tanto faz… Pouco
importa. Todos já se foram, ninguém mais irá voltar.
Opa… Perdoem-me, pois
estou embriagada. Mas só, claro que não estou! O álcool agora é meu
companheiro. “Por favor garçom, mais uma taça de vinho”. Olhe só, até
por esse tenho que pagar a companhia. Isso não me soa novo, muito menos
me assusta. Há tempos venho comprando acompanhantes, amigos que não são
tão amigos assim. E enfim, compro pessoas. Com um pouco de dinheiro no
bolso, estas suportam viver junto a mim. No começo é doloroso, admito
que alguns machucados sofri. Mas no fim… me tornei seca. Apenas não
quero ficar sozinha. Podem estar ao meu lado, apenas cumprindo o serviço
prestado. Mas não, não me deixem. Por favor, sozinha não me deixem. Eu
tenho medo do escuro, dos fantasmas que me assombram ao cair da noite.
Não, por favor. Eu pago. Uma
companhia até pegar no sono. Até que o medo se vá. Alguém se habilita?
Não… tudo bem. Há dezenas de caixas de remédios tarja preta que guardo
em cima da geladeira. Apenas esperando por mim. Essa é a companhia de
hoje a noite. Sim, eu sei. Não se deve misturar álcool a esses remédios.
Meu médico já me alertou, me encheu de avisos. Não, ele não se importa.
Apenas está cumprindo seu ofício. Ou talvez ele tenha medo que algo
venha a acontecer. E um familiar… amigo meu, coloque um processo em suas
costas. Espere. Me deixe gargalhar um pouco. Não há ninguém… Ninguém
que se importe, que vá fazer algo por mim!
Amanhã mesmo irei em seu
consultório. Em uma das mãos a garrafa de vinho e na outra a caixa cheia
desses remédios que me causam arrepios. Largarei a feliz notícia. Meu
caro, não há ninguém… ninguém. NINGUÉM! Com certeza ele não entenderá,
eu estarei tropeçando nas palavras, e nada falarei com sentido. Apenas
deixarei claro isto. Não há ninguém que se importe. Talvez o peso de
suas costas diminua. E ele, nem se importe mais em como irei ingerir
minhas drogas. Pois, já ouviu falar em mortos indigentes? Estes, não
possuem conhecidos, família, amigos. E então, morrem. Morrem de morte.
Não, não importa se foi uma facada atingindo o coração, uma bala na
cabeça ou até uma parada respiratória. Morreram. Fizeram falta? Não…
Então, pouco importa a causa disso.
Talvez eu me torne um
destes corpos que examinam nas faculdades. Digno. Para quem passou a
vida sozinha. Terminar em uma sala cheia de jovens estudantes,
examinando meu corpo. Será que eles se perguntarão, como foi meu
passado? Ou como arranjei aquela cicatriz no ombro direito? Ah, só pode
ser o álcool, me causando alucinações. Ninguém, irá querer saber sobre a
vida de uma indigente!
Agora, vou tomar meus remédios
e dormir. Essa noite escura já está me causando arrepios. Se amanhã eu
vier a acordar, e lembrar de todos os meus pensamentos de hoje, visito
meu médico. Mas claro, depois que a ressaca passar…
G.Schardosim
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