Lá vem o beija-flor roubar o pólen recluso entre as pétalas que
revestem meu corpo. Em pé de vento se escorrega para o lado das formosas
moças, o senhor namorador, distribuidor de beijos. Um semblante meio
Don Juan conquistador. Uma piscadela para cá e a moça-flor-donzela se
desfaz igual açúcar quando derramado em água corrente que resvala até
rolar ralo abaixo, até cair nos braços do amante. Descobri em
teus trejeitos porque tu recebes essas asas sarapintadas ao cair no
berço. Tudo não passa de uma bela armação, um figurino bem feito, como
fazem nas telenovelas para prender olhares alheios. Até que por fim
consegue desarmar um peito consolante, desfazer as armaduras. Uma bela
jovem despencou em queda livre, caiu em tua arapuca.
Lá ao longe já posso ver o Don Juan, as malas prontas e a carruagem a
caminho. Fugitivo de seu ninho antigo foi fazer de outra flor seu novo
abrigo. Já feito gastos nesta terra seca de chuvas e farta de mulheres,
se foi antes de cair ao pó da terra por culpa de alguma espingarda de
dono pouco importante neste trecho. Don Juan não divide atenções.
Minha terra que como já disse era seca, de empoeirar a pele e
bronzear os rostos pálidos, depois da ida do senhor namorador chove de
dia e de noite, chovem poças dos olhos das moças jeitosas. E pra quem
não sabe, foi assim que se formou lagoa em minha cidade, é choro de
donzela por beija-flor ladrão de pólen’amor.
G.Schardosim
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