quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Afogar-me


Afogada em um mar de saudades.
As lembranças foram vindo e eu me deixei cair entre elas. O tempo corre sem pedir permissão, os dias se atropelam, não imaginando o caos que essa simples aceleração pode ocorrer a mim… a nós! Saudade… saudade é pouco, isto que me ocorre, é capaz de me deixar de garganta trancada. O ar se perde em seu trajeto, e até meu pulmões não é capaz de chegar. Agonizo, grito, choro, clamo por apenas uma ajuda. Que alguém estenda a mão, e me retire deste poço de memórias.
As horas agora passam lentamente, vou me perdendo de mim mesma. Acabam-se minhas forças, deixei de lutar. De minha boca, nenhum som é expelido. Prefiro o silêncio. É, deixe que ele corroa minhas entranhas, que rasgue meu peito. Não há ninguém mesmo, ninguém pode impedir-me de afogar. Fora eu quem me joguei neste poço, fora eu quem quis revirar o passado! Eu sei, estás achando tudo isso assombroso, mas o principal ainda tenho a lhe contar. A dor. Não apenas essa dor que aperta e enrijece os músculos de meu corpo, mas também está que adentra minh’alma, acabando com cada pouquinho de vida que ainda me resta.
Estou prestes a erguer bandeira branca, em um simples pedido de paz. Não posso suportar mais essa guerra que enfrento comigo mesma. Nessa minha guerra não haverá vencedor algum, apenas um perdedor de uma luta singular. Meu corpo agora está tão pesado, não consigo mais mantê-lo, perdi as esperanças de vida. Vou me deixando levar. Caindo, indo em direção ao fundo. Onde tudo começou, ao fundo de meu poço, ao fundo de minhas lembranças.
Aqui foi o começo, e aqui será o fim.
As forças que me restam, são o bastante para levantar o pequeno objeto de metal. Com firmeza em meus dedos tão fracos, seguro o cabo do objeto posto a frente de meu peito. A ponta fina e afiada aos poucos vai rasgando meu peito, a primeira gota do sangue vermelho-rubro cai, em seguida me jogo ao abismo… Num instante já estava eu ao fundo, ao fundo do poço. Nos meus últimos segundos de vida. Em minha volta, a água tomava a cor de meu sangue, e eu nada mais fazia por minha vida. A cada segundo eu me debatia menos, a dor se ia junto com minha consciência… Deixei-me ir sem hesitar, me pareceia mais fácil assim, terminar com essa dor, terminar comigo mesma. Entro em um coma induzido por mim mesma.
Acalme-se, está quase no fim, dor alguma eu sinto mais. Tudo a minha volta se torna apenas um breu e em seguida perco de vez a consciência. Morri por duas vezes seguidas, primeira em’alma, e agora até meu corpo está morto. Meu coração parou de bater, minha pele quente perdeu seu calor.
“Estou fria. Estou morta”

G.Schardosim

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